Notícias: Em 1872 é implantada a primeira sala de aula de Tibagi

on 12/08/2011 - 19:10 4564 reads Antes de 1872, quem nascia em Tibagi não ia para a escola. Simplesmente porque não havia escola. Para estudar, os filhos de famílias mais ricas podiam ir à cidade grande – Curitiba, tentar uma vaga no ensino primário. Mas aos demais, a pouca leitura de uns deveria ser repassada aos outros até que a Freguesia do Tibagy (assim mesmo, com y ainda), pertencente ao município de Castro, recebeu pela Lei 305 de 2 de abril daquele ano a Cadeira de Instrução Primária para o Sexo Feminino. Este era o nome da primeira escola da cidade.



Com carteiras conjugadas, as alunas sentavam-se aos pares. Mais tarde houve o ingresso também de meninos e para os bagunceiros, o pior castigo era fazer dupla com uma menina. “As salas de aula eram equipadas com mapas e cartazes pedagógicos e nas carteiras havia um buraco apropriado para deixar o tinteiro. Ainda não havia canetas esferográficas e os alunos tinham de se virar com as antigas penas”, relata Neri Assunção, diretor do Museu Histórico Desembargador Edmundo Mercer Júnior. No Museu, objetos escolares fazem parte do acervo, como a lousa verde emoldurada em madeira e a temível palmatória.



Neri revela que, apesar de haver apenas uma escola oficialmente na cidade, muitas salas improvisadas serviam às crianças em idade de aprender no centro da cidade. “Havia escolinhas administradas por professores e professoras, como a de dona Fernandina do Amaral, nas proximidades do prédio onde hoje funciona a Secretaria da Criança e da Assistência Social”. Isso foi em 1913.

Dois anos mais tarde, a precaridade das salas de aula teve fim com a inauguração do moderno prédio da Escola Telêmaco Borba – hoje Biblioteca Pública Municipal Historiador Luiz Leopoldo Mercer. O prédio foi construído em terreno cedido pela Prefeitura e com recursos do Estado, no governo de Carlos Cavalcanti.



Para a época, os equipamentos eram o auge da modernidade e as salas de aula do grupo tinham quadro negro, globos terrestres, mimeógrafos, máquinas de escrever, giz, apagador e material de estudo do corpo humano. “Era tudo novidade e os estudantes ficavam impressionados”, relata Neri.




Uma vida na sala de aula

Até o final da década de 1970, o Grupo Escolar Telêmaco Borba permaneceu no prédio histórico, de arquitetura imponente. Por ali, milhares de tibagianos passaram pela 4a série em que a professora Cherubina de Andrade Mercer atuou durante 25 anos. Outros seis anos ela esteve à frente da direção do Colégio. Aos 21 anos, Cherubina, hoje aos 82, iniciou sua carreira no magistério. “Fiquei 25 anos numa sala de aula, toda uma vida. Tenho saudades até hoje. Tudo mudou. Era muito diferente”, relata a aposentada.

Cherubina lembra-se com romantismo de sua experiência como professora e acha que as novas gerações não têm o mesmo respeito e interesse. “Os alunos eram interessados, não tinha essa desordem que tem hoje. Uma vez por semana eu dava aula de trabalhos manuais. Duas vezes por semana, dava aula de educação física. Hoje tem professora para tudo”, compara.

Ela mesma escreveu a história do grupo escolar que hoje funciona em sede ampla, com quadra coberta, biblioteca e todos os recursos das escolas modernas. “Desde a fundação até o dia que fiquei lá, escrevi nesse livro ata o nome de todas as diretoras e professoras”, diz Cherubina.

Das mais de 30 gerações de alunos que teve em suas mãos, a professora só lembra com orgulho. “Meus alunos já são avós. Pergunte para quem você quiser, fui professora de meio Tibagi. Por mim passaram alunos que são médicos, engenheiros e até dois padres”.

Segundo ela, ainda hoje muitos ex-alunos a procuram. “Eu gostava muito e eles gostavam de mim, a prova é que vêm me visitar até hoje. Nunca usei palmatória, nunca nem castigo eu dei”, garante.



Tecnologia

No início deste mês, Tibagi ganhou repercussão em todo o Estado pelo lançamento do Programa Escola Sem Fronteiras, que implantou lousas digitais em todas as salas de aula da rede municipal de ensino. Ao comparar com a sala de aula de 139 anos atrás é possível visualizar o enorme avanço na educação pública.

“A tecnologia é maravilhosa agora. Eu tinha um caderno de cartografia e muita coisa eu desenhava no quadro negro porque não tinha cartaz, mapas. Era tudo muito mais limitado”, conta a professora aposentada.

Dona Cherubina indica que precisava “se virar com o material didático” e que era muito difícil porque ela mesma tinha de desenvolver seu material. “Às vezes eu tinha de procurar figuras em casa. A caligrafia a gente traçava na pedra as linhas com barbante e giz. Agora com esse sistema é tudo muito fácil para eles”, acredita.




Escola de Rocio

Em 1928 era fundada a Escola Particular de Rocio do Tibagi, sob a direção do professor João Justino dos Santos, conhecido como João dos Santos. “Ele era provavelmente o único professor negro em Tibagi na época. A escola ficou famosa pelo fato de ele conseguir ensinar alunos que iam mal na Telêmaco Borba. Ele lapidava e deixava meninos e meninas craques. Era enérgico”, comenta Neri Assunção.



Sua escola funcionava próximo ao Parque do Risseti, na comunidade São Domingos e no local ainda hoje há uma pedra como marco da escola no local. “Na época não era pavimentado e havia muito barro no caminho até lá. Conta-se que as crianças lavavam o pé no arroio São Domingos e deixavam os chinelinhos na porta da escola”, finaliza Neri.


Aconteceu!

Para valorizar o acervo do Museu e divulgar os acontecimentos que fizeram história em Tibagi, toda semana o diretor Neri Assunção, em parceria com a Assessoria de Comunicação da Prefeitura, desenvolve textos que relatam fatos marcantes na coluna Aconteceu!, no site (www.tibagi.pr.gov.br).

O Museu Histórico oferece trabalhos desenvolvidos em pesquisas e exposições temporárias. Permanece aberto de terça à sexta-feira das 8 horas às 11h30 e das 13 horas às 17h30. Sábados e domingos, a visitação pode ser feita das 9 horas às 11h30 e das 13h30 às 17 horas. Para agendamento, o telefone é (42) 3916-2189. A entrada é franca.


Texto: Emanoelle Wisnievski
Pesquisa: Neri Aparecido Assunção
Imagens: Christian Camargo e Acervo Museu Histórico