Notícias: 'O Jornal' tenta emplacar baiano como prefeito em 1935

on 15/07/2011 - 19:59 2386 reads Às vésperas das eleições para prefeito e vereadores em Tibagi, circulava pelas pacatas ruas da pequena cidade, um tabloide de quatro páginas recheadas de intenções políticas em 1935. 'O Jornal' apresentou-se declaradamente como favorável ao migrante baiano Nelson Santos, que disputava a cadeira de prefeito com o tibagiano Guataçara Borba Carneiro, e pedia voto aos candidatos a vereador do Partido Social Democrático. Manoel Camargo e Guilherme W. Ross eram os redatores, sob a gerência de Romário S. Martins. A publicação teve apenas uma edição, com a original preservada no Museu Histórico Desembargador Edmundo Mercer Júnior.



Em 29 de agosto daquele ano, O Jornal traz na capa a manchete “Em Retrospecto a Politica Tibagyana” e investe na narrativa sobre um município que muito evoluiu sob a liderança do prefeito Capitão Manoel Miguel Ribeiro, do Partido Social Democrático. O argumento do texto principal é de que o Município progrediu economicamente depois que as famílias tradicionais perderam os pleitos anteriores. “Com a riqueza que, assim, passou das mãos dos que para as dos que servem, concomitantemente, veio, dentro de um regimen de liberdade e justiça, a incrementação do nosso commercio (sic)”, diz o texto.



Os autores pontuam as mudanças desde 1930 e citam que aumentou o número de casas “commerceais” de cinco para 15. “Do mesmo modo houve um augmento de dobro de hoteis, e triplo de pharmacias”, indicam, relacionando ainda criação de escolas, outras obras e crescimento no orçamento da Prefeitura. O Jornal tenta convencer os tibagianos de que o Partido Social Democrático deveria permanecer no poder. “Podemos mesmo affirmar, que a politica descabida, de cincoenta annos de governo não conseguiu emprehender siquér 40% do que a actualmente dominante”, apontam, sem deixar de atacar o grupo da oposição.



O candidato Nelson Santos era migrante da Bahia e em alguns pontos do jornal, os redatores argumentam contra o bairrismo na tentativa de dar abertura para que o baiano não sucumbisse frente ao costume de eleger nomes ligados às famílias tradicionais tibagianas. “Brasileiro do norte, do centro, do sul, de todas as classes sociaes! Acabemos de uma vez por todas com o indesejavel bairrismo creado pelo espirito faccioso da opposição. Attendei que somos todos irmãos, antes de tudo, brasileiros. Confundamo-nos todos, baianos, paranaenses, cariocas, fluminenses...”, diz o texto.

O Jornal ainda traz poesia e grandes anúncios das lojas Casa Bentinho, Secos e Molhados Jonas Baptista Carneiro e Casa Brasil, do próprio candidato Nelson Santos.



Guata é eleito, mas o diplomado é Nelson

Cerca de dois mil eleitores estavam aptos a irem às urnas naquele mês de setembro em Tibagi. Todos os homens maiores de 18 anos e apenas as mulheres funcionárias públicas podiam e eram obrigados a votar nessa época, conforme edital da Comarca publicado em O Jornal.



Apesar do esforço do jornal em eleger Nelson Santos, o baiano foi derrotado por Guataçara Borba Carneiro e, a partir da contagem de votos, iniciou-se uma intensa disputa pela cadeira no Executivo que ganhou repercussão na imprensa de todo o Estado. Nelson questionou a contagem e Guata não foi diplomado. A Justiça anulou várias urnas em quatro sessões de grande votação para Guataçara, que perdeu ali cerca de 900 votos.

Em 24 de janeiro de 1936, tomava posse como prefeito Jonathas Baptista Bueno, de modo provisório até que a questão fosse julgada pelo Supremo Tribunal Federal. Um mês depois, em 29 de fevereiro, Nelson Santos finalmente é diplomado como prefeito. A briga não para aí. Ainda em 1936, o baiano perde o cargo e uma nova eleição coloca Guataçara na Prefeitura no mês de agosto.



Primeiro jornal de Tibagi

Quase 100 anos após a circulação dos dois primeiros jornais brasileiros, o Correio Braziliense de Hipólito da Costa e a Gazeta do Rio de Janeiro, da corte real, no início do século XIX, circula pelas ruas de Tibagi o primeiro impresso da cidade, anterior ao O Jornal. Em 1° de janeiro de 1905, João Capilé lança 'O Tibagy', que teve apenas uma edição e virou peça do Museu Histórico Desembargador Edmundo Mercer Júnior. O exemplar foi doado ao Museu pelo professor Aroldo Mercer, pesquisador que reuniu vários elementos da história de Tibagi no acervo.



O Tibagy teve como redator o influente prefeito e deputado estadual, que hoje dá nome à cidade desmembrada de Tibagi, coronel Telêmaco Borba. Ele esteva à frente da máquina de escrever de onde saíram os textos destacando a paisagem bucólica da pequena cidade. 'Orgam Imparcial' foi o slogan do jornal que nasceu para ser semanário, inclusive com anúncio de assinaturas, mas acabou na única edição.


Aconteceu!

Para valorizar o acervo do Museu e divulgar os acontecimentos que fizeram história em Tibagi, toda semana o diretor Neri Assunção, em parceria com a Assessoria de Comunicação da Prefeitura, desenvolve textos que relatam fatos marcantes na coluna Aconteceu!, no site (www.tibagi.pr.gov.br).

O Museu Histórico oferece trabalhos desenvolvidos em pesquisas e exposições temporárias. Permanece aberto de terça à sexta-feira das 8 horas às 11h30 e das 13 horas às 17h30. Sábados e domingos, a visitação pode ser feita das 9 horas às 11h30 e das 13h30 às 17 horas. Para agendamento, o telefone é (42) 3916-2189. A entrada é franca.



Texto: Emanoelle Wisnievski
Pesquisa: Neri Aparecido Assunção
Fontes: MARENA, Ninger. O Homem do Tibagi – Guataçara. Curitiba. Fundação Cultural, 1983.
Imagens: Christian Camargo e Acervo Museu Histórico