Notícias: O trabalho das parteiras: ritos e simpatias na 'boa hora'

on 01/07/2011 - 18:57 4326 reads Ao longo dos nove meses de gestação, elas visitavam a futura mamãe, apalpavam a barriga, faziam orações, receitavam simpatias e até se arriscavam a prever o sexo da criança. Com carinho, cuidavam das gestantes para que tivessem “uma boa hora”. E quando a hora chegava, não importasse se à noite ou de dia, corriam para a casa da mãe em trabalho de parto e tomavam conta de tudo. Portas fechadas, bacias de metal com água morna, toalhas brancas, um pouco de álcool, alguns parcos instrumentos. Os homens na cozinha ou do lado de fora, fazendo apostas sobre se o rebento seria menino ou menina. As vizinhas correndo de um lado para outro providenciando os aparatos. As crianças o mais longe possível, algumas olhando para o céu à espera de uma tal cegonha. Esse era o cenário de muitos nascimentos antes dos hospitais substituírem o ambiente de casa na hora do parto. E em tal contexto, a principal figura nem sempre era a mãe ou o bebê, mas a parteira.

Em Tibagi, esse trabalho voluntário foi herança da escravidão. Na Fazenda Fortaleza, as escravas eram parteiras para as patroas, segundo Neri Assunção, diretor do Museu Histórico Desembargador Edmundo Mercer Júnior, onde estão expostos instrumentos de trabalho de parteiras da cidade. “Quando da libertação dos escravos, esse trabalho passou para as futuras gerações e algumas parteiras ficaram conhecidas da população tibagiana, como a ex-escrava Tia Olímpia, que dedicou grande parte de sua vida ao trabalho e auxílio às mães”, ressalta o diretor.



Outras mulheres que acompanharam a chegada de tibagianos ao mundo são Haydee Borba Larocca, Uricena Garcia, Ambrósia Capote, Nhá Aguida, Nhá Sinhana, Neomézia de Castro Nunes, Ocalina Ayres e Uricena Mercer Guimarães, dona 'Cenica'.



Dona Ocalina




Dona Neonesia




Dona Cenica

Uricena Mercer Guimarães é uma dessas mulheres que fez história em Tibagi por realizar o parto de centenas de crianças. “A vida inteira foi parteira. Atendeu todas as mulheres daqui”, diz sua prima, Cherubina de Andrade Mercer. A primeira providência da mulher que percebia o atraso em suas regras era correr para Uricena pedir os préstimos da dona-de-casa, crocheteira, doceira e parteira. “Aquelas coisas de antigamente. Uricena receitava os chás e acompanhava a gravidez. Todo mês, a gestante tinha que tomar purgante, um laxante, para a pele da criança sair bem limpa. E quando a mulher entrava em trabalho de pato, ela ia na casa e ficava até a criança nascer”, relembra Cherubina.



“Acompanhei dois partos. Eu sempre pedia a ela, que se não houvesse restrição, me levasse junto. Só pude ir em dois, um era meu sobrinho. Vi ele nascer. Foi muito emocionante, uma coisa maravilhosa quando a gente presencia aquela pessoinha saindo da mãe”, adiciona a prima. Ela relata que Uricena ficava sentada ao lado da paciente, “muito calma, fazendo um crochezinho ali, na maior paciência e dizendo que era assim mesmo, que as dores eram normais”.

A parteira sabia dizer se seria tudo normal ou se a mãe precisaria de algum atendimento especializado para encaminhar a outras cidades. “Mas Deus é tão grande que nunca ela precisou encaminhar para fora”, garante Cherubina. Quando a criança nascia, a parteira ainda repassava os procedimentos essenciais, de acordo com os costumes da época. “No quarto dia e no penúltimo dia da dieta a mulher tinha que tomar o laxante. Era chá de sene, manã, rosa branca e erva doce. Um punhadinho de cada um. Fazia o chá e tomava”.

Outras recomendações já caíram de moda. “Não podia lavar a cabeça, tinha sempre que estar de meias, com os pés quentes. Não podia comer arroz requentado, repolho. Hoje não tem mais nada disso, por isso que as mulheres vivem doentes”, indica Cherubina, que teve cinco filhos, todos no hospital. “Eu era muito medrosa, tinha minha mãe em Ponta Grossa e ia para lá uns dias antes”, revela.

As pessoas confiavam muito em dona Cenica. “Ela tinha tudo muito bem preparado, uma maletinha com instrumentos. Uma bacia bem limpa com água. Pingava álcool e tacava fogo na bacia de alumínio para desinfetar. Sempre panos bem limpos. E depois, cortava o umbigo. Lembro-me que ela media com os dedos fechados, um palmo, para cortar o cordão umbilical. Virava o bebê de cabeça para baixo e batia no bumbum”, relata Cherubina. Após tanto ajudar a nascer, Uricena morreu aos 89 anos em 20 de junho de 1992.




Rituais

Muitos ritos acompanhavam o momento do nascimento de uma criança. O cordão umbilical era cercado de mistérios para as mães de antigamente, que apostavam em simpatias para garantir saúde ao recém-nascido. “Muitas enterravam o cordão e outras davam-lhe aos animais para ser comido. Ainda havia as que guardavam o umbigo num paninho, bem longe de ratos. Tudo isso era para dar sorte à criança”, conta Assunção. A crença popular indicava que se um rato comesse o cordão, a criança poderia se tornar ladra.

As parteiras geralmente faziam serviço voluntário e, por reconhecimento, eram madrinhas do primeiro filho de cada família. O batizado em casa que antecedia a cerimônia na igreja ainda é costume da população de interior. “E quando cresciam, era hora do batismo na fogueira de São João. Os padrinhos atravessam o brasido com a criança por três vezes dizendo: 'Batizo com o nome de São João e de Deus Pai'”.

No bercinho de cestaria, suspenso, ou em uma rede de cordas, o bebê dormia com sua chupeta, aqui também chamada de 'bico'. Era a hora das canções de ninar. “Dorme neném, que a cuca vem pegar, papai foi na roça e mamãe volta já, já”, relembra Assunção.

Para explicar às outras crianças a presença de um novo irmãozinho, muitas histórias. “Podiam dizer que um sapo trouxe a criancinha da lagoa ou que a cegonha deixou no telhado”, pontua o pesquisador. E quando os dentes caíam, muitas outras simpatias ganhavam força. “Jogavam o dentinho sobre o telhado e entoavam: ratinho, ratão, leva esse dentinho e traga outro bem fortão”, diz Assunção.

A profissão de parteira em Tibagi não existe mais, no entanto, no interior do município, mulheres que herdaram a profissão ainda acompanham as gestantes até o momento de seguirem para a maternidade.



Índias

As índias Caigangue habitantes de Tibagi também tinham seus rituais para o parto. No livro Actualidade Indigena, de Telêmaco Borba, escrito há 100 anos, há relatos de como as crianças indígenas chegavam ao mundo. “Quando se sentiam próximas de dar a luz, se é de dia vão ao mato com uma companheira, logo depois do parto entram na lagoa dos arroios, lavam-se com o recém-nascido e vão para os seu ranchos onde continuam a trabalhar como se nada tivesse acontecido”, descreveu Telêmaco. “Amamentam as crianças por dois a quatro anos, geralmente até terem outro”, acrescenta o pesquisador.


Aconteceu!

Para valorizar o acervo do Museu e divulgar os acontecimentos que fizeram história em Tibagi, toda semana o diretor Neri Assunção, em parceria com a Assessoria de Comunicação da Prefeitura, desenvolve textos que relatam fatos marcantes na coluna Aconteceu!, no site (www.tibagi.pr.gov.br).

O Museu Histórico oferece trabalhos desenvolvidos em pesquisas e exposições temporárias. Permanece aberto de terça à sexta-feira das 8 horas às 11h30 e das 13 horas às 17h30. Sábados e domingos, a visitação pode ser feita das 9 horas às 11h30 e das 13h30 às 17 horas. Para agendamento, o telefone é (42) 3916-2189. A entrada é franca.


Texto: Emanoelle Wisnievski
Pesquisa: Neri Aparecido Assunção
Fontes: Enio Torniolo em monografia sobre a Sociedade Tibagiana.
BORBA, Telêmaco. Actualidade Indigena. Tibagi: 1901.
Imagens: Christian Camargo e Acervo Museu Histórico