Notícias: Aconteceu! Tradição de Corpus Christi abre espaço para arte

on 22/06/2011 - 19:38 4708 reads Uma procissão mantida como tradição em praticamente todas as paróquias católicas do mundo se repete nesta quinta-feira (23) e deve reunir em Tibagi mais de 500 fieis. A procissão de Corpus Christi é repleta de simbologia e abre espaço também para manifestações artísticas na elaboração de tapetes coloridos e criativos. No município, essa tradição teve início com a chegada de padres Redentoristas, os mesmos que construíram a atual igreja matriz e o Palácio do Diamante, antigo seminário, hoje sede da Prefeitura.

Na década de 1930, os Redentoristas dos Estados Unidos são enviados ao Brasil em missão de evangelização e desembarcam em Tibagi trazendo na mala todos os rituais que acabam entrando para a cultura local. Com eles, surge na cidade o costume de enfeitar ruas com desenhos inspirados pelos fieis, incluindo o Movimento da Congregação Marianos, Membros das Filhas de Maria, freiras, coroinhas e catequistas.



A caminhada simbólica com o Corpo de Jesus permaneceu no decorrer de quase oito décadas sobre um tapete que contornava as praças da Igreja Matriz: Leopoldo e Edmundo Mercer. Somente nos últimos anos é que o trajeto foi ampliado e hoje atinge outros bairros. A procissão parte da Igreja Matriz, depois da missa que inicia às 15 horas, e chega à praça 18 de Março, onde um caminhão abriga o altar improvisado para a bênção sobre a hóstia.

Nesse percurso, o chão decorado chama a atenção de quem passa e em cada pedacinho do trajeto, diversos tipos de materiais dão forma às criações de artistas anônimos. Com serragem colorida, borra de café, farinha, areia e pequenos acessórios, como tampinhas de garrafas, flores e folhas e até pinhão, os fieis montam o tapete com palavras e figuras relativas ao assunto. Um desses artistas faz isso há mais de 30 anos.




Arte

José Joelcio de Oliveira é serralheiro e, nas horas vagas, artista plástico. Usa sucata para compor esculturas e desenha formas no papel. “O pai tinha comércio, uma lanchonete, e eu desenhava os fregueses. Desenhava do balcão. Tinha pessoa que comprava meus desenhos”, relata Joelcio, rememorando sua infância.



Desde então, o serralheiro não parou de desenhar. Ele é um dos muitos voluntários que usa seu talento para homenagear Jesus Cristo. No dia de Corpus Christi, às oito da manhã, lá está ele debruçado sobre seus desenhos em serragem. “Morava na praça e sempre acompanhava minha mãe na igreja. O pessoal colocava voluntários e eu entrava ajudando, desde pequenininho. Depois comecei a trabalhar na igreja como sacristão e quando alguém falava em desenho, era comigo”, conta.



Artista na solidão

No entanto, o artista popular tem seus métodos e, um deles, é o isolamento no momento da criação. “Não consigo desenhar perto das pessoas. Tenho que ficar 'mocado', as pessoas só veem a hora que eu termino”. E agora José? Como fazer a arte do tapete de Corpus Christi sem que as demais pessoas prestem atenção em seu trabalho? “Peço para o pessoal deixar só eu naquele espaço e de vez em quando podem até ajudar, mas a hora que ficam em volta, olhando, eu travo e não consigo”, descreve.



Apesar da metodologia solitária de criar, Joelcio faz questão de prestar seu serviço a Deus nesse dia. “Amanhã [dia 23], se Deus quiser, tô agitando lá. É a minha vida inteira. Esse dia tem que expressar tudo o que sinto, porque todo dia é dia de Corpus Christi, mas quando a gente faz esse trabalho, sabe que é direto para Jesus”, diz o artista.

Para ele, o significado das obras no Corpus Christi é bem maior que de suas peças tradicionais, como esculturas em ferro de um Dom Quixote ou um cangaceiro. “Só a pessoa sentindo mesmo, não consigo nem explicar direito”.

E ver todo esse trabalho se desmanchando sob os pés dos fieis, não dói na alma do artista? “Eu não tenho dó pelo significado do que está acontecendo naquele momento. É Jesus quem está passando. Sinto que estou entregando aquele trabalho para Jesus e ele me dá em dobro. Fico feliz”, resolve.



Das imagens produzidas, a que ele mais gostou até hoje foi da face de Jesus. “Desenho Jesus Cristo, Nossa Senhora, o cálice com a hóstia, cacho de uva, vela, palavras, como paz. Mas uma vez, há muito tempo, fiz uma face de Jesus e nunca mais consegui desenhar igual. Não foi fotografado, fiquei sentido, porque ficou muito bonito. O pessoal até ficou com pena de passar por cima”, relembra.



Roupas no caminho

O pároco da Paróquia Nossa Senhora dos Remédios, padre Nelson Bueno, coordena a liturgia do Corpus Christi há pelo menos três anos e relata situações curiosas, como o costume que algumas pessoas ainda mantêm de colocar sobre o tapete suas próprias roupas. “A participação normalmente é bastante boa. Muitas pessoas arrancam a blusa e jogam no tapete, nem que suje, para Jesus passar por cima. Depois pegam de volta. É um ato simbólico de humildade e respeito”, acredita.



Segundo o padre, os voluntários da confecção do tapete trabalham das 8 horas até meio-dia para garantir que Jesus seja bem recebido na procissão. No ritual, vários elementos compõem a liturgia. O ostensório é o suporte dourado, com cápsula para envolver a hóstia. Sobre ele, o baldaquino, uma proteção contra sol ou chuva, semelhante às usadas na Idade Média para proteger reis e rainhas. “Assim como se protegiam os reis, hoje é um sinal de carinho a Jesus”, defende padre Nelson. Logo atrás, ministros carregam os estandartes da padroeira Nossa Senhora dos Remédios e da copadroeira Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. “Todos os ministros e coroinhas participam porque estão a serviço da eucaristia”, resume.



História

O pároco conta que a procissão surgiu no século 13, Idade Média, com o Papa Urbano IV. “Até ali a eucaristia não saía para fora da igreja. Houve um período de descrença e a procissão foi uma forma de afirmar a fé”, indica. “O tapete passou a ser feito para que o próprio Deus, presente na santa hóstia, pudesse passar por cima, assim como um rei. É uma homenagem”.



O momento é importante, na opinião do padre, para que a fé seja pública, de manifestação. “Todo o respeito com a eucaristia, para arrancar de dentro do sacrário, e sair para as ruas, visto a olho nu, é uma coisa muito importante”.

A Solenidade do Corpo e Sangue de Cristo foi instituída pelo Papa Urbano IV com a Bula ‘Transiturus’ de 11 de agosto de 1264, para ser celebrada na quinta-feira após a Festa da Santíssima Trindade, que acontece no domingo depois de Pentecostes. Corpus Christi (expressão latina que significa Corpo de Cristo) é uma festa que celebra a presença real e substancial de Cristo na eucaristia.




Aconteceu!

Para valorizar o acervo do Museu e divulgar os acontecimentos que fizeram história em Tibagi, toda semana o diretor Neri Assunção, em parceria com a Assessoria de Comunicação da Prefeitura, desenvolve textos que relatam fatos marcantes na coluna Aconteceu!, no site (www.tibagi.pr.gov.br).

O Museu Histórico oferece trabalhos desenvolvidos em pesquisas e exposições temporárias. Permanece aberto de terça à sexta-feira das 8 horas às 11h30 e das 13 horas às 17h30. Sábados e domingos, a visitação pode ser feita das 9 horas às 11h30 e das 13h30 às 17 horas. Para agendamento, o telefone é (42) 3916-2189. A entrada é franca.


Texto: Emanoelle Wisnievski
Pesquisa: Neri Aparecido Assunção
Imagens: Christian Camargo e Acervo Museu Histórico