Notícias: Ex-escrava, 'Tia Olímpia' foi a primeira assistente social de Tibagi

on 13/05/2011 - 14:20 3112 reads Há 123 anos, a princesa Isabel assinava documento que garantia a liberdade de todos os escravos no Brasil. A Lei Áurea de 13 de maio de 1888 marca o início de uma nova fase na história dos negros brasileiros e em Tibagi, onde quase 70% da população é afrodescendente, o fim da escravidão também deixou marcas importantes. Muitos objetos e documentos arquivados no Museu Histórico Desembargador Edmundo Mercer Júnior mostram como foi o processo de libertação na região e, neste 13 de maio, a homenagem da Casa é para uma escrava em especial: 'Tia Olímpia'.

De acordo com registros da escritora Nylzamira Cunha Bejes, no livro Teu Nome é Historia, Olímpia Novaes Taques nasceu escrava em Itararé (SP), em 1872, e pertencia à família Novaes, da cidade de Castro. Mas foi em Tibagi que a negra deixou registrada sua importante participação na sociedade daquela época. Parteira, Olímpia era uma precursora da enfermagem e ainda acumulava funções como doceira, lavadeira, passadeira – pau para toda a obra.



“Após a abolição da escravatura, Tia Olímpia casou-se com Guido de Camargo Taques, que também fora escravo. Ele nasceu em 1853 e pertencia à família do Comendador José Borges de Almeida Taques, também chamado de Coronel Juca Taques, que morava em Tibagi”, conta Neri Assunção, diretor do Museu.

Foi assim que Olímpia veio parar em Tibagi. Com saia de algodão escura, franzida e longa, quase até os tornozelos, blusa de algodão estampado em cores claras de mangas compridas, a tia usava lenço claro na cabeça e calçava chinelos de couro. “Andava rápido pelas ruas de chão batido”, pontua Neri.

A ex-escrava fez como todos os negros libertos daquela época e foi trabalhar com os serviços domésticos por míseras quantias. Lavava roupas, engomava camisas e era força de trabalho em quase tudo. “Fazia doces para festas, cuidava de enfermos e também era parteira prática, ama de leite, era chamada para ajudar em qualquer situação de emergência. Sempre que alguém precisava, lá estava ela, pronta, colaborando com a máxima eficiência e boa vontade”, relata Neri.

Tanto ela como seu marido Guido não se negavam a serviço algum e foi desta forma que conseguiram criar seus dez filhos. “O que é realmente uma façanha numa cidade pequena, onde não sobrava emprego”, assinala o diretor do Museu.



Tia Olímpia foi o que hoje se pode chamar de assistente social. Ajuda aos jovens recém-formados que retornavam ou vinham de outras cidades a Tibagi para se iniciarem na profissão. Por seus cuidados passavam médicos, advogados, professores e juízes. Também ia à casa das pessoas doentes e saía em busca de auxílio. “Ela visitava outras pessoas, contava que fulano estava doente e que teria de levar a ele uma sopa. As pessoas não só lhe davam a sopa, como também procuravam visitar o doente mencionado”, comenta.

Neri destaca que jamais alguém a viu pedir algo para si mesma, “porque era mais próprio dela oferecer seus préstimos a quem precisasse do trabalho suado, numa época sem as tecnologias de hoje”.

A ex-escrava heroína de Tibagi morreu aos 73 anos em 13 de janeiro de 1945. “Sua morte foi de consternação geral, porque era muito estimada por todos. Deixou uma família numerosa, bem como um número enorme de amigos a quem ela havia servido com alegria e bondade”, completa Neri.

Em sua homenagem, a Câmara de Vereadores votou em 1962 a Lei 335 que nomeia uma rua da cidade com seu nome. No final da rua, bairro Beira Rio, um singelo chafariz com placa em sua homenagem foi implantado onde Tia Olímpia costumava lavar roupas. Guido Taques, seu marido, viveu muito tempo. Sua despedida aconteceu em 20 de novembro de 1952, aos 99 anos.




Escravidão em Tibagi

Neri Assunção sustenta que Tibagi ganhou grandes e honestas famílias de negros durante a escravidão. “Aqui se radicaram, se multiplicaram e trabalharam para o engrandecimento e progresso de sua terra”. Curiosidade interessante é que todos os escravos libertos adotaram como seus os nomes dos seus antigos senhores. “Assim, quase todos os descendentes de escravos de Tibagi conservam ainda a hoje sobrenomes como Taques, Bittencourt, Barbosa, Ribeiro, Machado, Novaes, Mercer e Santos, entre outros”, salienta.

Com a liberdade, famílias de escravos passaram a residir numa aérea de terra doada entre Tibagi e Castro, onde fundaram um povoado denominado São Damas ou São Damásio. Para Neri, a contribuição das famílias negras de Tibagi é valiosa até os dias de hoje. “Deixaram herança na culinária que passa por várias gerações, fundaram o Clube Estrela da Manhã e firmaram a identidade de Tibagi através das artes, esportes, música e costumes”.





Aconteceu!

Para valorizar o acervo do Museu e divulgar os acontecimentos que fizeram história em Tibagi, toda semana o diretor Neri Assunção, em parceria com a Assessoria de Comunicação da Prefeitura, desenvolve textos que relatam fatos marcantes na coluna Aconteceu!, no site www.tibagi.pr.gov.br.

O Museu Histórico oferece trabalhos desenvolvidos em pesquisas e exposições temporárias. Permanece aberto de terça à sexta-feira das 8 horas às 11h30 e das 13 horas às 17h30. Sábados e domingos, a visitação pode ser feita das 9 horas às 11h30 e das 13h30 às 17 horas. Para agendamento, o telefone é (42) 3916-2189.


Texto: Emanoelle Wisnievski
Pesquisa: Neri Aparecido Assunção
Fonte: BEJES, Nylzamira Cunha. Teu Nome é História. Planeta, 2007.
Imagens: Christian Camargo, Arquivo/Museu Histórico