Notícias: Há 19 anos, tibagianos participavam da São Silvestre

on 16/12/2010 - 18:49 2269 reads Parece um vício. O maior prazer está na linha de chegada e até mesmo as dores musculares refletem satisfação. Quem aprende a correr e começa a participar de competições, não abandona mais. Pelo menos é assim com alguns tibagianos que fizeram e ainda fazem história no atletismo. Exemplo do sexagenário Manoel Betim. Descrevendo assim, ele parece idoso, mas pessoalmente o corredor mais famoso de Tibagi não faz lembrar a terceira idade. Sua juventude está na estrutura magra e saudável que lhe permite aos 60 anos participar de maratonas e ainda planejar outras várias corridas para o próximo ano. Na lembrança, o momento mais marcante remete a 31 de dezembro de 1991, quando completou os 15 quilômetros da Corrida Internacional de São Silvestre.



Dezenove anos depois, Manoel lembra com nitidez da primeira participação de um tibagiano, ou melhor, de dois tibagianos, na corrida mais famosa do Brasil. “Fui eu e o Manoel Pascoalino. A gente gostava de correr”. E nem precisa dizer, basta olhar para sua coleção de 155 medalhas e 85 troféus. “Muitas medalhas eu dei pra gurizada que me pede”, relata.

Manoel acaba de se aposentar – não no atletismo. Foram 35 anos como operador de máquinas na Prefeitura – os últimos quatro como motorista do caminhão de coleta de lixo. Agora não precisa mais levantar as seis da manhã para seus treinos, mas ainda faz questão de correr logo cedo. “Faço quatro treinos por semana. Na grama uns oito quilômetros e mais dez no asfalto. Geralmente vou do centro até o Chizini [saída do distrito industrial]”, informa, lembrando que “antigamente cansava de deixar a máquina no interior e voltava a pé, uns 20 quilômetros”.

Sua maior satisfação é motivar os jovens a praticar o esporte. “Incentivei muito a piazada. Fiz corrida de rua por um tempo e ainda hoje carrego eles no meu carro para participar das competições fora”, conta. “Fiquei bastante conhecido, fiz amizades. É um prazer imenso quando estou correndo na rua, ver o pessoal dando com a mão”.



Periodicamente o atleta faz uma bateria de exames para ver como anda sua saúde. “Nunca apareceu diabetes e nem colesterol alto”, enfatiza. “Ter dor a gente tem, mas quase nada. Através do esporte é que me sinto realizado e com boa saúde”, garante, ressaltando que nunca gostou de bebida alcoólica nem de cigarro.

32 anos com o pé na estrada

A história de Manoel no atletismo começa em 1978. “Eu gostava de esporte desde menino novo, mas foi naquele ano, quando o município era muito retirado, não tinha rodovia asfaltada, que comecei a fazer caminhada até o Guartelá”, revela. Ele ficou conhecido pela audácia de percorrer mais de 36 quilômetros a pé e gostou da repercussão. “Comecei na caminhada e daí já entrei nas corridas rústicas”.



Um passo importante na carreira esportiva partiu de iniciativa sua: promover a primeira Minimaratona Ecológica do Guartelá, com 18 quilômetros de percurso, em 1989. A competição se repetiu até 1991 e reunia em média 50 atletas de várias partes do Paraná. “Eu fechava em uma hora e oito minutos, sempre tirava o troféu”.

Depois disso, foi só manter o pé na estrada e viajar. “Conheci o Paraná inteiro e tenho amigos em pelo menos 12 estados do Brasil. Tudo gente que conheci nas provas em que participei. Corri ao lado dos quenianos”, orgulha-se.

Além da São Silvestre, a prova mais importante foi a Maratona de São Paulo, com os 42 quilômetros de trajeto cumpridos em três horas e 25 minutos em julho de 1996. “Classifiquei na posição 435 no geral, mas na categoria para mais de 40 anos fiquei em segundo lugar”, lisonjeia-se.

Na memória estão gravados outros muitos instantes de alegria, como o ano de 1986. “Ganhei o campeonato de rua da cidade de Ponta Grossa, na categoria dos veteranos. Corri junto com profissionais de Curitiba e aquilo me marcou muito, porque eu ganhei as oito etapas. Foi muito emocionante subir ao pódio oito vezes e ficar campeão geral”, relembra. Há 24 anos consecutivos, Manoel participa da prova.

Lá também estão as recordações que dão um nó na garganta. “Foi uma provação, mas consegui terminar a prova”, diz, referindo-se ao ano de 1985 numa cidade que tem seu nome. “Participei da corrida em Manoel Ribas no Norte do Paraná. Tive umas distorções muito fortes no meio da corrida. Pus a mão na cabeça e pedi a Deus para conseguir chegar ao final. Levantei o troféu de terceiro lugar e fui homenageado pelo prefeito da cidade”.

“Enquanto eu puder, vou continuar”



Hoje com 1,72 metro de altura e 69 quilos, Manoel se considera “mais gordinho” e mesmo assim tem disposição para encarar qualquer desafio. A próxima corrida será já neste final de semana em Arapoti, na festa de aniversário do município. “E dia 28 de janeiro tem a Corrida 28 em Apucarana. Eu vou”, planeja.

E os planos vão longe. O exemplo ele encontrou na Maratona Ecológica de Curitiba em 21 de novembro deste ano, quando concluiu em quatro horas e vinte minutos e ficou entre os cinco primeiros na categoria para acima de 60 anos de idade. “Vi um 'velhinho' de 82 anos correndo então isso me animou muito. Ele fez dez quilômetros, sinal que eu posso andar bem mais. Que Deus me dê saúde, porque eu não vou parar de correr. Enquanto eu puder, vou continuar”.

Seu maior sonho é voltar a promover corridas de rua em Tibagi para motivar a gurizada, como ele gosta de dizer. “Sempre tive apoio do comércio e da Prefeitura para competir. Agora quero ter de novo este apoio para incentivar a juventude de Tibagi e da região. Quero trazer esses meus amigos, que também são veteranos, para contar histórias, relembrar o passado”, almeja.

Mas e se Manoel fosse obrigado a parar de correr? “A hora que eu não puder mais participar, vou agradecer muito a Deus por todo esse tempo. Acho que já tá muito bom. É a maior alegria da minha vida, porque representei Tibagi dando esse exemplo pra juventude”.

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Texto: Emanoelle Wisnievski
Pesquisa: Neri Aparecido Assunção
Imagens: Christian Camargo