Notícias: Tempo de Natal era marcado por Mesadas de Anjo

on 09/12/2010 - 18:26 3850 reads Depois de 12 anos consecutivos, este é o primeiro em que dona Nair Pinto Silveira não realiza sua Mesada de Anjo. Aos 80 anos, a aposentada não está mais com saúde e disposição para reunir as crianças da vizinhança na tradicional festa da fé e da solidariedade. Mas na memória, a confraternização permeia suas lembranças ainda da infância.



“Desde criança eu participava com minha mãe, depois eu mesma realizava. Você faz uma intenção, de qualquer coisa para o seu bem, daí faz o banquete, chama as crianças da vizinhança e reza. Chama no mínimo nove anjos. É um agradecimento pelo que você passou naquele ano”, explica.



A prática relatada por dona Nair era muito comum nas cidades do interior do Paraná em datas religiosas, como o Dia de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, forma carinhosa de se chamar a padroeira do Brasil, e na época que antecede o Natal. Ainda hoje o costume é mantido em Tibagi, com o almoço servido por Marilda Carneiro das Dores há 20 anos sempre no Dia das Crianças e de Aparecida, 12 de outubro, e que neste ano reuniu mais de 200 pessoas.



O mais interessante das Mesadas de Anjo está nos detalhes do evento no seu formato mais antigo. Todas as crianças se deliciavam com as guloseimas, seja de almoço ou lanche, vestidas com roupas brancas e asas de anjo. Algumas usavam vestes de santos. Junto dos pais, saíam em procissão pelas ruas da comunidade carregando a Bandeira do Divino, estandarte com um pano vermelho, enfeitado com fitas coloridas e que leva no topo a imagem de uma pomba simbolizando o Espírito Santo.



As festas também eram realizadas na praça Leopoldo Mercer, em frente à Igreja Matriz de Tibagi, como mostram fotos do acervo do Museu Histórico Desembargador Edmundo Mercer Júnior da década de 1940 e 50. Neri Aparecido Assunção, diretor do Museu, comenta que os registros comprovam que nos anos 40, o ato solidário era organizado ainda no campinho atrás da Igreja. “As pessoas levavam as crianças enfeitadas de anjo e de santas para receber a bênção do padre. A mesada era montada ali mesmo no gramado e como se pode ver, eram sortidas de pães, bolos e doces”, mostra.

Hino do Beijo



Filha de Nair, Matilde Aparecida Silveira Zapzalka relembra as procissões e toda sua simbologia. “Era costume sempre fazer uma reza na capela que minha mãe tem em casa, bem pequena e ornamentada com pedras. A procissão na quadra era acompanhada pelos pais das crianças e num momento a gente cantava o Hino do Beijo à Bandeira e todos a beijavam”.

Segundo Matilde, os hinos centenários eram distribuídos em cópias para quem participava. “Eram canções passadas de avó para netas que a gente tentava resgatar. Minha irmã, Marquesa, canta muito bem e ela costumava puxar os hinos”, diz. Antes de Marquesa, o líder da cantoria era José Assunção, seu 'Capelão'. “Ele era convidado para a procissão. Agora o pessoal está perdendo esse costume”, reclama.



Para preparar os bolos, doces e salgados, toda a família e vizinhança se unia. “Virava uma festa”, realça Matilde, que também arquiva na memória sua participação como anjo. “Lembro de quando era criancinha e participava das mesadas na casa da vó, depois minha mãe resolveu fazer”. Dona Nair lamenta que a tradição esteja se perdendo. “Muito já se apagou, é uma pena”.



Mas dona Nair pode ficar mais tranquila porque a tradição não terá fim. Pelo menos no que depender de Janicéia Aparecida Ribeiro Assunção e de Neri, o diretor do Museu que é também filho do Capelão. Neste ano o casal já fez sua primeira Mesada de Anjos e reuniu 40 crianças na sua casa. “A Jane quer continuar, fazer todos os anos”, garante.


Texto: Emanoelle Wisnievski
Pesquisa: Neri Aparecido Assunção
Imagens: Christian Camargo/Célio Zapzalka