Notícias: O Bar do Osmar já não tem mais um janelão

on 03/12/2010 - 16:39 3264 reads Por 26 anos, José Osmar Sedlak viu a vida passar através da janela com mais de 3,5 metros no prédio construído na década de 1920. É uma grande janela para as proporções das casas do centro histórico de Tibagi, feita especialmente para que os frequentadores do local pudessem acompanhar os acontecimentos urbanos dessa vista privilegiada para a praça Leopoldo Mercer, em frente à Igreja Matriz. E esse cenário, que remete aos anos 70, permaneceu quase intacto até o último mês, quando seu Osmar fechou as portas do bar mais famoso da cidade.

“É uma vida né? Do jeito que eu peguei aqui, eu deixei. Só troquei um balcão e a 'frizerama'”, conta o comerciante, personalidade conhecida em Tibagi, praticamente uma 'figura carimbada' na história da comunidade. Ele teve de mudar seu ponto comercial porque, depois de tanto tempo, a estrutura precisa de reformas. “Agora tô tocando o bar na rua Frei Gaudêncio, 774”, avisa de forma enfática à reportagem na esperança de que todos os fregueses sejam avisados. E o novo ponto, seu Osmar? “Tá indo bem. Opa. Boa parte da freguesia tô mantendo. São os mesmos que iam lá”, garante.



Embora o estabelecimento seja apresentado como Lanchonete do Osmar, o ponto ficou conhecido mesmo como Bar do Osmar, onde o tranquilo proprietário podia ser visto sempre na mesma posição, com um braço apoiado no balcão e o olhar manso, de quem tem muita paciência. “Eu sou sossegado, gosto de dar atenção, de conversar com o cliente”, diz o comerciante, revelando o segredo de tantos anos de fidelidade dos fregueses. “Conheci muita gente e fiz muitos amigos. Já faleceu vários fregueses e tenho saudade, como o Geraldo Romão e Durlindo Pinto, um oficial de Justiça que vinha sempre aqui”.



Osmar relata que fez a mudança do bar exatamente na data em que comemorava 26 anos da inauguração do ponto comercial. “Comecei a tocar o bar no dia 8 de novembro de 1984 e saí de lá na mesma data, agora em 2010”, fala, emocionado.

“Ainda recebo muita gente que morava aqui e agora vive em outra cidade, mas que no Finados, Natal, Ano Novo e Carnaval sempre voltam e dão uma passadinha”, comenta. E foi justamente na relação que sempre estabeleceu com seus clientes que Osmar conseguiu permanecer por tanto tempo sem perder espaço para os empreendimentos mais modernos. “Foi ficando antigo o prédio, a estrutura, a decoração, mas eu não perdi pra concorrência. Acho que meus fregueses gostam do atendimento”.

Alegrias e tristezas



Balcão de boteco é como divã de consultório de psicólogo, seu Osmar? “Ah é. A gente faz um pouco de tudo, escuta os desabafos, dá conselho, tenta ajudar. Acontece tanta coisa ali dentro. Muita gente pede a nossa opinião, conta segredo”. E o senhor guarda os segredos? “Guardo né? Se me contou uma confidência, não falo pra ninguém, senão perco o freguês”.

Nessa parte do diálogo, seu Osmar não conteve o ímpeto de contar alguns acontecimentos marcantes, como as horas de alegria e de tristeza. “Um conta uma piada, depois outro conta outra. O pessoal dá muita risada”. E repete um causo, dito como verdadeiro. “O falecido Áurio gostava de contar que o papagaio dele fugiu e foi morar com as pombas do outro lado do rio. Então um dia ele foi caçar as pombas e encontrou o papagaio. Ele dizia que o papagaio levantou as asas e gritou: 'não me mate por favor, eu volto para casa'”, relata Osmar, finalizando a história com uma longa gargalhada.

“Mas tem vez que o freguês chora também. Um dia, num inverno muito bravo, a turma começou a se reunir. Tomaram 12 litros de conhaque, choraram 14”. Os motivos, segundo ele, são sempre parecidos: separação, amor impossível e prejuízo financeiro. Em tais situações, o impossível é fugir das fofocas. “A gente fica sabendo da vida de todo mundo. Mas eu só escuto. Não passo pra frente”, garante.

Bebe?

Para quem por 26 anos esteve atrás do balcão servindo salgadinhos, refrigerantes e muita bebida alcoólica, o tira-gosto pode ser um problema. Não para seu Osmar. “Não bebo. Não sinto vontade porque enjoa de ficar servindo”, assegura. A participação da família no negócio também ajuda. Ele levou os filhos para a lanchonete, desde crianças, e procurou dar bom exemplo.

Dificuldades

Para seu Osmar, nestas quase três décadas de atividades, a parte difícil foi enfrentar seis arrombamentos com furto de seu patrimônio. “Mas isso acontece em todas as cidades. Era complicado abrir aqui e ver que tinham levado as coisas”.



Outros momentos 'complicados' para o comerciante eram os “bêbados chatos”. Mas ele aprendeu a dar um 'jeitinho' nisso. “Às vezes a pessoa chegava alcoolizada de outro bar e vinha incomodar. Eu dizia que já estava fechando e não vendia mais”.

Para seu Osmar, contrato é no fio do bigode. “Vendi muito fiado e levei muito prejuízo dos caloteiros. Só que a maioria pagava sempre bem certinho”.

História



A edificação do início dos anos 20 tem pouco mais de 60 m2 e já foi construída para ser ponto comercial. Neri Aparecido Assunção, diretor do Museu Histórico Desembargador Edmundo Mercer Júnior, comenta que o ponto na praça central é atrativo. “A propriedade de Raul Alves de Lima era um ponto de referência dos tibagianos. Aos finais de semana, se reuniram para contar causos de garimpo e de pescaria, como mostra uma foto do acervo do Museu. Nela está o senhor Roldão Nocera exibindo um dourado na frente do bar”.

O Bar do Raul funcionou até década de 70, quando Neizon Barreto de Lima montou no local um açougue. Mais tarde, o ponto abrigou restaurante do mesmo proprietário. “Até meados de 1984 foi restaurante até que seu Osmar passou a tocar o bar”, diz Neri.

No começo era uma sociedade entre ele e os filhos de Raul, herdeiros da casa. Dez anos depois, Osmar comprou a parte na sociedade e passou a pagar aluguel pelo espaço. “E nunca tivemos contrato, sempre foi de boca sem nenhum problema”, acrescenta Osmar.



Neri informa que por alguns anos um posto de combustível funcionou ao lado do prédio, onde também foram instalados o Supermercado Chizini, Hotel e Restaurante Lima e, na década de 1940 o Cinema de Pedro Pitela. Em 1945 o cinema foi destruído num incêndio que afetou muitos prédios na mesma área. O Bar do Osmar ficou a salvo.

“O Bar do seu Raul Alves de Lima era ponto de encontro do povo tibagiano e na época das discotecas nos clubes, era obrigatória uma paradinha antes no Bar do Osmar. Era o 'point' da década de 80”, pontua Neri.

Agora que você já conhece a história do Bar do Osmar, deve estar se preguntando: depois da reforma, ele volta para o ponto na praça? “Não. Vou tocar aqui mais um pouco e me aposentar. Já trabalhei bastante”, responde seu Osmar.


Texto: Emanoelle Wisnievski
Pesquisa: Neri Aparecido Assunção
Imagens: Christian Camargo