Notícias: Devota Ana Beje ainda inspira lendas

on 29/10/2010 - 18:45 5549 reads Diz a lenda que quem der 12 voltas na Igreja Matriz de Tibagi em uma sexta-feira de lua cheia, à meia-noite, pode ter um encontro sobrenatural com o fantasma de Ana Beje. Das várias crendices reproduzidas pela comunidade, a personagem figura como uma das principais no imaginário popular. Parte da história da tibagiana que de tudo fez para ver construída a primeira Igreja Matriz é contada no Museu Histórico Edmundo Mercer, que desvenda os mistérios de Ana Cardoza, ou ajuda a reproduzi-los.

Ana Beje era filha do primeiro morador de Tibagi, Antônio Machado Ribeiro, o Machadinho, e de Josefa Cardoza. Teria nascido em 1776 e, na mocidade, casou-se com o sapateiro Francisco José da Cruz. Com ele teve seis filhos antes de fazer 30 anos: José, Juliana, Joaquim, Roza, Vicência e Maria. Francisco morreu aos 46 anos em 1805. A viúva casou-se novamente com com João Félix da Silva e com ele teve o último filho, Ananias.



No livro Teu Nome é História, de Nylzamira Cunha Bejes, Ana Bege é descrita como mulher de personalidade marcante e decidida, católica praticante e muito devota de Nossa Senhora dos Remédios. “Pessoa de muita iniciativa, pois numa época em que a as mulheres não se atreviam sair de casa sozinhas, ela montou a cavalo, tomou nos braços a pequena imagem de barro de Nossa Senhora dos Remédios (imagem que hoje está no Museu de Tibagi), como já era de seu costume e foi batendo de porta em porta, por atalhos e caminhos de Tibagi a Castro e a Ponta Grossa a pedir donativos com a finalidade de angariar fundos para que pudesse construir uma capela para melhor instalar a imagem de Nossa Senhora dos Remédios”, conta a escritora.

Nessa peregrinação, Ana Cardoza passou a ser Ana Beje – hoje é nome de rua em Tibagi e sempre desperta a curiosidade dos turistas pela grafia de Beje com a letra j. Mas a explicação está na linguagem popular. Já viúva e idosa, Ana apeava do cavalo pedindo ofertas para a obra da igreja e oferecia a imagem para que fosse beijada, dizendo: “Mecê Beje a Santa”.



“É necessário lembrar que a luta de Ana pela construção da capela e o hábito de oferecer a imagem para que fosse reverenciada e beijada foi iniciada desde o princípio de seu casamento, donde logo veio o apelido com que ficou conhecida”, diz a historiadora.

Diretor do Museu Histórico, Neri Assunção comenta que a imagem é um dos objetos mais procurados pelos visitantes. “É uma imagem que simboliza o esforço de praticamente toda uma vida de trabalho da Ana Beje para realizar seu sonho, embalado pela fé e devoção à Nossa Senhora dos Remédios”, argumenta.

Do trabalho de angariar fundos para a construção da capela, Ana arrecadou junto à comissão e moradores da então Vila de Tibagi, 515 mil e 40 réis em 1836. “O suficiente para que se construísse a primeira Capela Curada, feita de madeira lascada de pinho e coberta de sapé”, relata Neri. Contudo, a capela não tinha cura. Somente em 1851 chega o primeiro Vigário Frei Gaudêncio de Gênova.

Das terras que herdou de Machadinho, Ana Beje doou uma parte a Nossa Senhora dos Remédios, outra área vendeu a seu irmão Manoel das Dores. Ele, atendendo pedido da irmã, também doou à padroeira de Tibagi a área onde hoje está a Igreja Matriz. Não há relatos sobre a morte de Ana Beje nos livros oficiais de história. Pela Lei 149 de 15 de julho de 1930, atribui-se a Ana Beje o nome de uma das ruas centrais votada pela Câmara Municipal e sancionada pelo prefeito Leopoldo de Sá Mercer.

Lendas



“Ana Beje percorreu a região a cavalo, pedindo ajutório para a construção da primeira igreja. No imaginário popular em Tibagi, sua figura, vestida de branco, pelas ruas da bucólica cidade na escuridão da noite, ainda é presente”, indica, em prosa, Neri Assunção. “Ela aparece e desaparece, descendo o paredão do Rio Tibagi. No remanso das águas, ela caminha sobre o caudaloso rio, onde repousa uma serpente. Nas noites de lua cheia, ouve-se apenas o barulho da cachoeira a se contrapor aos barulhos de carroça e cincerros. Mas, quem quer que tenha coragem, diz a lenda, de dar 12 voltas, à meia-noite, na igreja, verá, em seguida, Ana Beje vestida de branco a caminhar pelas ruas. Mas a cada aparição sua, aumenta uma rachadura nas paredes da igreja. Na neblina, Ana Beje desaparece. Não tente segui-la, pois ela vai acalmar a serpente adormecida”, finaliza.

Cinema



As estórias e a história relacionadas a Ana Beje em Tibagi já foram parar na grande tela. Durante oficina de cinema ofertada na cidade em 2009, atores de Tibagi interpretaram o documentário com ficção que contou a vida da peregrina. Marília Davascio interpreta a mulher que se vestia de branco e que ainda inspira medo e superstição.



O vídeo foi realizado pelos alunos da Oficina Itinerante de Vídeo Tela Brasil em Tibagi, com o apoio da Unidade Municipal Social Educacional de Tibagi, realização Buriti Filmes e Associação Tela Brasil e co-produção Corte Seco. Além de Marília, participaram do filme os alunos: Dani Nowak, Tamara Dantas Alfaro, Adrieli Ferreira Martins, Mayara Batista Leite, João Pedro Agostinho, Fabiano Lemes Pereira, Christian Marcelo Camargo e Lucas Barreto.

Assista ao filme


Texto: Emanoelle Wisnievski
Pesquisa: Neri Aparecido Assunção
Fonte: 'Teu Nome é História', de Nylzamira Cunha Bejes
Imagens: Christian Camargo e Arquivo Museu Histórico Desembargador Edmundo Mercer Júnior