Notícias: Monteiro Lobato e o petróleo em Tibagi

on 22/10/2010 - 13:51 3308 reads Que relação teve a busca por petróleo em Tibagi e o escritor Monteiro Lobato? A ligação entre estes temas curiosos, de que pouca gente ouviu falar, pode ser desvendada em uma visita ao Museu Histórico Desembargado Edmundo Mercer Júnior, onde estão cópias de duas cartas escritas por Lobato a um tibagiano na década de 1940.



Em 1936, o escritor conhecido pelas histórias infantis lançou o livro 'O Escândalo do Petróleo e do Ferro', em que relata as dificuldades na política relativa à exploração das riquezas minerais no país, inclusive sobre o entrave criado pelo então Ministério da Agricultura na aprovação de lei relativa ao assunto pelo Congresso do Paraná. Segundo Neri Aparecido Assunção, diretor do Museu, por ter se tornado conhecidamente um defensor da exploração do petróleo no país, Monteiro Lobato representou também a esperança de um tibagiano em conseguir atrair a atenção do Estado para a perfuração de área onde suspeitava haver uma jazida na região.

“As cartas vieram para o Museu em uma pasta doada por Gustavo Graf, que era de Cascavel e teve acesso aos documentos. Quando fomos catalogar os papéis descobrimos as correspondências de Lobato, rasgadas pela umidade, e infelizmente não pudemos saber com quem ele se comunicava”, diz Neri. No entanto, o diretor do Museu suspeita que o interlocutor do famoso escritor seria Augusto Sette Ramalho, proprietário da Fazenda Proserpina, em região de Lageado Bonito hoje compreendida pelo município de Ortigueira – na época a área integrava o território de Tibagi.

“Também não tivemos acesso às cartas escritas para Monteiro Lobato, mas deduz-se que se tratava de solicitação por ajuda para se formar uma companhia com interesse em efetuar uma perfuração na fazenda em busca de petróleo”, vislumbra o diretor.

Companhia

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Nas respostas, Monteiro Lobato diz ter prática no negócio do petróleo e mostra insatisfação com a falta de interesse público no setor. Veja a transcrição literal de um trecho da carta datilografada:

“Já não me iludo. Formar uma companhia para furar apenas num ponto, é coisa inviavel. Uma perfuração custa muito dinheiro. Uma sonda, com a respectiva tubagem, só ela, fica aí nos 1200 contos. E ha ainda os estudos geofisicos preliminares, tambem carissimos. Ora, um particular na levanta esse dinehiro para perfurar na sua fazenda. O meio é formar uma organização grande, como a que temos em vista e está lançada”.

Lobato aconselha o fazendeiro a juntar suas terras ao bloco formado por ele e outros interessados:

“E feito isso, V. S. tambem trabalhará conosco para que o governo do Paraná não se intimide com as ameaças do Odilon [Braga] e assine o contrato geofísico. Realizado isso, suas terras serao prospeccionadas e, tal seja o resultado obtido, bem pode ser que nelas se abra o primeiro poço”

Paraná

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As cartas são datilografadas e assinadas pelo escritor. Na segunda correspondência, Lobato diz que o caso de Tibagi é semelhante ao de numerosos possuidores de terras com indícios superficiais de petróleo, sobretudo no Paraná. Para atender ao pedido, ele relata ter se comunicado com o governador Manoel Ribas para que fizesse os estudos preliminares. Na sequência, ele conta que foi apresentado ao congresso paranaense projeto de lei destinando 400 contos para as prospecções geofísicas. No entanto, segundo Lobato, o governador teria sido aconselhado a impedir que o assunto tomasse repercussão na imprensa. Satisfeito, ele conta a resposta do governador:

“O Manoel Ribas, conforme sei por informação telegrafica, resistiu á pressão, e declarou que a imprensa do Paraná era livre e que nesse caso do petroleo ele não voltaria atrás. De modo que espero ver o projeto de estudos geofisicos aprovado ainda este ano”.

O escritor ainda menciona necessidade de contrato com a empresa Elbof, a quem ele se dirige como única entidade especializada em geofísica que goza de idoneidade bastante para determinar o futuro financiamento por grupo alemão.

“O que há a fazer, no seu caso, é esperar. Sem estudos geofisicos na zona de Tibagy, não é possível pensar em perfuração lá, e dado o alto preços desses estudos, só o estado poderá faze-los. Foi o caminho por onde entrei.”

Cadê o petróleo?

Monteiro Lobato acompanhava na época a formação da companhia de petróleo para explorar o subsolo do Paraná. Na região de Foz do Iguaçu, a companhia já possuía hectares de terra, como revela a carta. O escritor termina a correspondência dizendo que seria interessante um contrato com Tibagi, para ambas as partes.

Neri Assunção diz que as cartas catalogadas pelo Museu revelam indícios de uma primeira busca pelo petróleo no município, mas que nenhum outro registro aponta um achado de jazida ou a exploração mineral. “Na nossa cidade, apenas o garimpo de ouro e diamante se firmou como atividade de exploração das riquezas naturais disponíveis nessa época”, acrescenta.

Lobato x Vargas: O petróleo é nosso!

“O petróleo é nosso!" é uma frase que se tornou famosa ao ser pronunciada, por ocasião da descoberta de reservas de petróleo na Bahia, pelo então presidente da república Getúlio Vargas e que, mais adiante, se tornou lema da Campanha do Petróleo, patrocinada pelo Centro de Estudos e Defesa do Petróleo e promovida por nacionalistas, que culminou na criação da empresa petrolífera nacional, a Petrobras.

Entre a primeira concessão para exploração de petróleo no Brasil e a criação da Petrobras, em 1953, decorreram 89 anos. O país assistiu à polêmica entre o escritor Monteiro Lobato e o governo Getúlio Vargas – resumida na famosa Carta a Getúlio. O Brasil dividiu-se, então, entre os nacionalistas e os defensores do capital estrangeiro. A Campanha do Petróleo resultou vitoriosa, com a criação da Petrobras.

O Escândalo do Petróleo

Em 1936, diante dos obstáculos impostos pelo governo Vargas à exploração de petróleo, Monteiro Lobato lançou 'O Escândalo do Petróleo', no qual acusava o governo de "não perfurar e não deixar que se perfure". O livro esgotou várias edições em menos de um mês.

O Escândalo do Petróleo foi censurado em 1937 por Getúlio Vargas, no mesmo ano em que o escritor lançou 'O Poço do Visconde'. Na obra supostamente infantil, diz que "ninguém acreditava na existência do petróleo nesta enorme área de 8,5 milhões de quilômetros quadrados, toda ela circundada pelos poços de petróleo das repúblicas vizinha". Monteiro Lobato acaba sendo preso em 1941, ironicamente por uma ordem partida do General Horta Barbosa, que mais tarde seria um dos líderes da Campanha do Petróleo.

Descoberta de Petróleo

Em 1938, o governo decidiu explorar um poço em Lobato, na Bahia, e técnicos constatam a existência de petróleo. É criado o Conselho Nacional do Petróleo, e as jazidas minerais passam a ser consideradas propriedade estatal.

Em 1941, foi descoberto o primeiro poço de exploração comercial, em Candeias, no Recôncavo Baiano. De 1939 a 1953, foram perfurados 52 poços no país, descobrindo-se vários campos para a exploração. Contudo, no início da década de 1950, o Brasil ainda importava 93% dos derivados que consumia.

Após a promulgação da Constituição de 1946 foi travado um grande debate em relação à política do petróleo, entre os que admitiam a entrada de empresas estrangeiras e os nacionalistas. Nessa época surgiu a campanha O petróleo é nosso!, patrocinada pelo Centro de Estudos e Defesa do Petróleo.

Em 3 de outubro de 1953, foi criada pela lei 2004 a Petróleo Brasileiro S.A. (Petrobras) , que instituiu o monopólio estatal da exploração, do refino e do transporte. Esse monopólio durou 44 anos. Foi quebrado legalmente com a EC 9/1995 que modificou o Art. 177 da Constituição Federal. O fim do monopólio estatal foi viabilizado a partir de 16 de outubro de 1997, com aprovação da Lei do Petróleo (lei n° 9.478) e a criação da ANP (Agência Nacional do Petróleo), órgão regulador da indústria do petróleo. Este marco regulatório abriu caminho para a participação do setor privado na pesquisa, exploração, extração, refino, exportação e importação e distribuição de petróleo.


Texto: Emanoelle Wisnievski
Pesquisa: Neri Aparecido Assunção e Wikipedia
Imagens: Christian Camargo e Arquivo Museu Histórico Desembargador Edmundo Mercer Júnior
Sugestão de Legenda: Área hoje compreendida por Ortigueira pertencia a Tibagi