Notícias: Aconteceu! Frei Manoel atraía milhares de fieis

on 08/07/2010 - 20:07 2638 reads Há 118 anos, em 18 de julho de 1892, Frei Manoel era conduzido ao cemitério municipal por uma multidão. Mais de quatro mil pessoas assistiram ao enterro do Monge de Tibagi, personagem que figura na história da religiosidade e das crendices do povo local. Caminhante, viveu em tendas pelas estradas até que adotou o município para fazer o que acreditava ser sua missão.

Receitava remédios, fazia orações, benzia e, onde estava, tinha sempre uma fila de pessoas para atender. Sua presença por estas terras ainda é relatada pelos tibagianos, que guardam as lendas e as verdades sobre o monge. Parte dessa passagem está registrada em documentos no Museu Histórico Desembargador Edmundo Mercer Júnior.



O nome de Frei Manoel está ligado à história da cidade e, segundo Neri Aparecido Assunção, diretor do Museu e pesquisador, é grande o número de devotos e curiosos que visitam seu túmulo ainda hoje. “A noite, sempre se vê no cemitério um clarão. São as velas que mãos piedosas acedem sobre a sepultura”, diz.

A presença do monge leva a relatos do então tenente coronel José Florentino de Sá Bittencourt, importante fazendeiro da rica zona tibagiana, em texto de Octavio Camargo. Era o fim da tarde de um dia de abril em 1861 quando o tenente voltava com sua comitiva de tropeiros das feiras de Sorocaba e encontrou em Jaguariaíva com aquele moço de 30 anos, estatura média, olhos azuis claros e cabelos loiros. Manoel vestia-se modestamente, calçava alpargatas e trazia apenas uma maleta cheia de livros.

Neri conta que José Florentino foi solidário e ofereceu hospedagem em sua própria barraca. Num dedo de prosa, o frei contou seu nome, mas não indicou sobrenome ou filiação. Em sua apresentação, dizia ser natural de Vila Nova de Gaya, em Portugal. Teria estudado em ordem religiosa de frades e, por motivos pessoais, abandonara aquela missão para iniciar uma nova no Brasil. “É um mistério ainda saber como foi que escolheu Tibagi, mas nesta conversa com Florentino, Manoel teria afirmado que estava a destino da Freguesia de Tibagi, onde tinha um dever a cumprir”, diz Neri.

Os registros indicam que Manoel demonstrava ser astuto e conhecedor de informações enciclopédicas, inclusive medicina e teologia. Cativou o coração do Tenente José Florentino, mas se negou a aceitar a hospedagem oferecida.

Chegou

Não demorou muito e no mesmo ano Frei Manoel firmou bases em Tibagi. Andava devagar e ao envelhecer, com problemas nas pernas, passava a maior parte do tempo agachado, como mostra uma ilustração de autoria desconhecida guardada no acervo do Museu. Gostava muito de ler e o professor Joaquim de Souza Araújo muitas vezes cedia livros emprestados, que saboreava à sombra das matas, meditando. “De tempo em tempo, sumia da vila e ia entrando nos sertões ou perambulando de povoação em povoação, de casa em casa, receitando medicamento. Às vezes acertava e assim foi conquistando admiração e simpatia dos sertanejos, por índole supersticiosos que viam Frei Manoel como um santo”, realça Neri.

Profeta

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Frei Manoel escreveu um texto que se tornou quase que uma relíquia sagrada. A 'Carta de Aviso' posteriormente foi reproduzida e distribuída pelos cidadãos, que usavam lê-la em situações de perigo. O texto diagramado em forma de cruz tem cópia de 1930 mantida no Museu. Traz consagrações do Frei, que profetizou grandes tragédias e avisou a todos de forma apocalíptica. “Quem possuir esta carta de aviso com grande fé em mim, não temerá castigo algum”, anunciava o texto. “Todo aquele que duvidar das minhas palavras, não terá a minha benção e será condenado ao inferno para sempre”, ameaçava. A carta ainda rogava para que os anúncios fossem reproduzidos, divulgados entre o povo, que deveriam se preparar para dias de tormenta e lágrimas.

Neri Assunção acredita que este é um dos fatores que levam o povo a ainda confundir o Frei Manoel com o Monge João de Maria, que passou por Tibagi, mas aqui nunca residiu. “Era costume daquela época que estes religiosos andassem pelos povoados levando profecias e ofertas de cura”.

Localidade do Povo

Diz-se que Manoel não pedia nada a ninguém e, quando muito, aceitava um prato de comida ou um pouco de mate chimarrão, sua bebida preferida. Em 1888 residia na localidade 'do Povo' e Thomé Gonçalves Delgado, lavrador e homem religioso, andava acompanhando Frei Manoel. Acabou indo morar com o frei e era o divulgador de seus milagres.

A fama das virtudes do Monge se espalhou logo por toda parte. Milhares de pessoas vinham do Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo em direção à comunidade do Povo. Thomé cedeu uma velha casa ao Monge.

A aposentada Nair Silveira lembra dos causos contados pela avó sobre Manoel. “Uma vez foi uma mulher lá pedir a 'bença' pra ele e comentou: 'quanto piolho deve ter na cabeça'. Quando chegou em casa, percebeu sua cabeça cheia de piolhos. Usou vários remédios e nada adiantou. Então ela voltou lá e ele de logo perguntou para ela: 'tem muito piolho?' Ele não deu nada para ela passar ou tomar, mas quando chegou de volta em casa, já não tinha mais piolhos”, recorda dona Naia, com base nos contos da avó.

A aposentada também resgata da memória a situação divulgada de que duas mulheres consultaram o Frei e levaram a receita dos remédios para fazer em casa, usando ervas e pós medicinais. “Uma delas achou que ele havia exagerado e fez a receita com menos do que ele indicava. Esta morreu e a outra sarou”, sublinha. “Muita gente vinha de longe consultar com ele. O monge era um homem bom, da religião de Deus, de fazer o bem. Quem consultava com ele, vivia bem”, garante Nair.

O diretor do Museu adiciona que havia uma eterna romaria. “Dezenas de barracas ficavam nos campos próximos ao local onde estava o monge. De longe se ouvia a festa, com som de viola, acordeon gaúcho e acompanhamento do pandeiro nortista”, revela Neri. Ele destaca um fato que fortaleceu ainda mais a fé do povo. “No dia 5 de junho de 1891, uma horrível tempestade desabou na vila. A fúria do vento era tanta que arrancava árvores inteiras. A localidade do Povo também foi atingida pela ventania que arrebatou barracas de romeiros, deixando-os sem abrigo, à mercê do trovão e granizo”. De acordo com o diretor do Museu, a casa em que residia Frei Manoel tombou “num estrondo medonho”. Todos pensavam que ele tinha morrido, mas debaixo dos escombros, estava vivo o milagreiro, intacto.

Adoração e perseguição

Outro fato ecoou pela vizinhança: a água que o monge guardava num velho pote era disputada como remédio infalível contra todo tipo de moléstia. As cinzas deixadas por ele em fogueiras tinham o mesmo 'valor terapêutico'. “Este monge maltrapilho, com cabelos compridos e unha retorcidas, foi adorado como um verdadeiro deus por mulheres lindas e que vestiam seda”, indica Neri, contando que uma senhora mineira cobriu o corpo de Frei Manoel com um manto dourado, que ele jogou no fogo. “Uma senhorita riograndense ofertou um anel valioso que teve o mesmo destino. Noivas traziam véu em promessas feitas ao monge. Seu seguidor Thomé guardava tudo em um baú”. Registros dão conta ainda de que ricos fazendeiros enviavam de longe mulas arreadas que eram aproveitadas por Thomé em uma pequena tropa.

As autoridades quiseram cortar seu cabelo e unhas à força, mas diante da atitude hostil do povo, desistiram do intento. Em 1889, por ordem do então Chefe de Polícia do Estado do Paraná J. C. Gomes Ribeiro, o delegado da Vila de Tibagi José Timóteo de Sá Bittencourt baixou portaria para abrir rigoroso inquérito contra o Monge. A alegação era de que Manoel teria receitado o que chamavam de tártaro, provavelmente uma raiz, e causado enfermidade nas pessoas. “E nem tinha sentido. Ele receitava apenas ervas medicinais que mal nenhum faziam. O processo foi arquivado”, pontua o pesquisador.

O destemido Frei Manoel, ao mesmo tempo que demonstrava força e impetuosidade contra qualquer imposição, era também um homem sensível e emotivo. Certa ocasião, banda de música de Ponta Grossa tocava em uma festa em Tibagi e resolveu presentear o monge com algumas canções na localidade do Povo. O regente Manoel Cyrillo Ferreira não esperava a reação do milagreiro, que ao ouvir os músicos tocarem, deixou escapar muitas lágrimas.

A localidade do Povo, onde viveu por muito tempo o Monge de Tibagi, ganhou pontos comerciais e um dos empreendedores aproveitou para lucrar com as curas de Manoel. Confeccionou saquinhos de algodão em que os fieis levavam as cinzas da fogueira do Frei.

Epitáfio



O corpo do Frei Manoel foi encontrado em 18 de julho de 1892 junto à fogueira apagada. Seu enterro se tornou um evento grandioso acompanhado por praticamente toda a população da cidade naquela época. “Dizem que no cortejo, enquanto algumas pessoas já chegavam ao cemitério, ainda havia gente na altura do Arroio da Vargem, hoje portal entre Tibagi e Telêmaco”, salienta Neri.



Um de seus seguidores, Ildefonso Mendes de Sá mandou construir o túmulo de Frei Manoel – de lápide simples como os despojos que guarda. “Aqui jaz o homem penitente destituído das vaidades do mundo”, diz o epitáfio.

Na localidade do Povo foi construída uma capela onde os fieis faziam rezas e retiravam barro para passar em alguma enfermidade. “Na época conservaram até o pote usado pelo Frei com água que era renovada todo dia”, complementa o pesquisador. A capela não existe mais e a localidade do Povo é hoje campo de agricultura.


Texto: Emanoelle Wisnievski
Pesquisa: Neri Aparecido Assunção e texto de Octavio Camargo
Imagens: Acervo do Museu Histórico Desembargador Edmundo Mercer Júnior e Christian Camargo